Radar Político/Opinião Por Toni Duarte Por dentro dos bastidores da política brasiliense.

O ASSUNTO É

A bomba da PF no caso Daniel Vorcaro deixa a República sem chão moral

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O inquérito vazado da Polícia Federal, que caiu como uma bomba sobre o Supremo Tribunal Federal, foi mais estrondoso do que a invasão de 8 de janeiro, em 2023, que depredou as dependências da Corte.

Aquele fato levou à prisão de centenas de pessoas, enquadradas em crimes como tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e associação criminosa.

Desta vez, o abalo não veio de fora. Veio de dentro.

O lodaçal apurado pela Polícia Federal no caso do Banco Master tem como figura central o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso na Papuda sob acusação de chefiar um esquema que sangrou o sistema financeiro brasileiro.

A investigação expõe à sociedade um mecanismo que envolve ministros do STF, o procurador-geral da República e altas personalidades do Executivo e do Congresso.

O material tornado público não poupou reputações. Atingiu a República e colocou em xeque a autoridade moral da Suprema Corte, guardiã da Constituição, para falar de democracia e defendê-la como deveria ser o seu papel.

Não se trata de comparar violência de rua com investigação policial, nem de absolver os atos de 8 de janeiro. Trata-se de reconhecer a diferença de natureza do dano.

Uma depredação é visível, localizada e julgada. Um sistema de relações privilegiadas, se confirmado, corrói a confiança nas instituições por dentro.

Relatórios da PF descrevem proximidade, mensagens, encontros e interesses cruzados entre o controlador do Master e autoridades com poder de influenciar investigações, contratos e rumos processuais.

O próprio relator do caso no STF, ministro André Mendonça, levantou o sigilo da apuração nesta semana.

A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, pediu a nulidade do relatório.

O material, porém, já provocou um abalo institucional sem precedentes. A sequência dos fatos agrava o quadro. Vorcaro foi preso, solto, preso de novo. O banco foi liquidado.

O inquérito subiu ao Supremo por prerrogativa de foro. Relatorias mudaram. Sigilos foram impostos e depois afrouxados. Vazamentos se multiplicaram.

Agora, com o relatório à vista, a discussão deixou de ser apenas financeira e passou a ser política e institucional: quem sabia o quê, quando soube e o que fez com esse conhecimento.

Uma Corte que se apresenta como última trincheira da democracia não pode conviver, sem resposta clara, com a suspeita de que o poder de julgar e o poder de proteger interesses privados tenham se misturado.

Tampouco pode tratar o episódio como ruído midiático. Se as mensagens e os registros são o que a PF afirma, o país precisa de investigação independente, contraditório amplo e decisão pública.

Se não são, precisa do mesmo rigor para desmentir a narrativa e responsabilizar quem vazou ou distorceu.

O 8 de janeiro feriu o prédio e testou a resiliência institucional. O caso Master, no estágio em que chegou, fere a credibilidade de quem deveria julgar o ferimento.

Por isso o impacto é maior. Não porque a rua tenha sido menor, mas porque o centro do poder aparece, desta vez, no centro da cena.

*Toni Duarte é jornalista e editor/chefe o Radar-DF, com experiência em análises de tendências políticas e comportamento social da capital federal. Siga o #radarDF

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