Diz o adágio popular que político sem mandato não vê nem o vento bater à porta. O pragmatismo das urnas costuma isolar quem perde o cargo, mas a máxima falha de forma retumbante quando aplicada a Michelle Bolsonaro.
No intrincado xadrez político do Partido Liberal de Valdemar Costa Neto, a ex-primeira-dama não precisa de mandato para exercer poder: ela construiu uma legenda inteira para chamar de sua dentro da própria sigla.
Para compreender o tamanho desse fenômeno, basta ler a frieza dos números de 2022 e 2024.
Na primeira campanha, Michelle atuou como o cabo eleitoral mais eficaz do bolsonarismo na reta final, sendo peça-chave para o recorde histórico de representação do PL.
Sob seu magnetismo, a legenda estruturou a segunda maior bancada feminina da Câmara, com 17 deputadas federais, além de pavimentar diretamente a eleição de nomes fortes ao Senado, como Damares Alves no DF e Tereza Cristina no Mato Grosso do Sul.
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Mas foi nas eleições municipais de 2024 que o “efeito Michelle” se consolidou de forma incontestável. No comando do PL Mulher, ela cruzou o país, mobilizou bases, filiou e treinou lideranças femininas.
O resultado foi um salto de quase 46% na representação feminina do partido, elegendo 1.005 mulheres entre prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras. Enquanto caciques tradicionais brigavam por espaço, ela “pintou o Brasil de rosa”.
É exatamente essa musculatura eleitoral, construída na base do carisma e da identidade com o eleitorado conservador e evangélico, que provoca calafrios no clã Bolsonaro e na cúpula do próprio PL.
Com o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível na prática até o ano de 2060, em razão de sua condenação penal, o espólio político da direita virou alvo de disputa.
Mas nenhum dos herdeiros diretos, como Eduardo, Carlos, Renan ou o próprio senador Flávio Bolsonaro, hoje pré-candidato ao Planalto, consegue se equiparar ao apelo de massas que Michelle possui.
Flávio, que hoje patina na rejeição do eleitorado feminino, sabe o tamanho do prejuízo que o distanciamento da bela madrasta provoca.
Por isso, as recentes sinalizações de bastidores feitas por Michelle, de que estaria disposta a abrir mão de sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal após atritos familiares, são apenas firulas.
Diante de um capital político que soma milhões de votos espalhados por todo o território nacional, não há qualquer hipótese realista de a ex-primeira-dama ignorar a oportunidade de se tornar a maior líder da direita brasileira e muito maior do que a estrutura familiar que tenta contê-la.
Michelle sabe que as centenas de mulheres que hoje ocupam governos, prefeituras e casas legislativas em todo o país veem nela a sua principal fiadora.
Quem tem um exército de mais de mil eleitas e a liderança isolada nas pesquisas para o Senado no DF não se aposenta; apenas redefine as regras do jogo, simples assim.



