Há um truque antigo na política que se disfarça de civilidade democrática: o relógio. Se cada candidato tem o mesmo tempo formal para perguntar e responder, o debate seria justo.
Só que justiça de palco não se mede pelo cronômetro individual. Mede-se pelo volume de fogo concentrado num único alvo. Quando cinco adversários se organizam, espontaneamente ou por conveniência, para atacar a mesma pessoa, o tempo deixa de ser igual. Vira cerco.
Foi isso que o debate do Metrópoles realizado na noite desta quinta-feira (10), expôs com clareza.
Não é preciso cronometrar segundo a segundo para perceber o desequilíbrio: Celina Leão passou boa parte da noite rebatendo, pedindo direito de resposta, respondendo a acusações sobre família e a herança da gestão anterior.
Os outros administraram o próprio tempo para golpear. Ela administrou o dela para se defender dos ataques difamantes.
Em tese, todos tiveram a mesma cota. Na prática, cinco cotas convergiram contra uma. Em uma disputa politica, Governo sempre é alvo.
O problema é o formato que transforma o alvo em saco de pancada e ainda chama o resultado de isonomia. Pergunta de 30 segundos, resposta de dois minutos, réplica, tréplica: o manual é simétrico. O efeito político, ao contrário do manual, não é simétrico.
Quem ataca escolhe o tema, o tom e o veneno. Quem defende gasta o relógio limpando o chão. E quando o veneno desce à família, o debate deixa de ser disputa de governo. Quem puxa esse nível sabe o que está fazendo.
Obriga o outro a responder no mesmo registro ou parecer omisso. Celina desceu. Era previsível. Também era desnecessário.
Ora, ela não precisa desse teatro. Lidera as pesquisas e deixa o pelotão atrás. Quem está na frente não ganha ponto extra ao aceitar um formato em que a oposição tem incentivo estrutural para o jogo baixo: cinco microfones apontados para a mesma biografia.
Os adversários, sem proposta que os diferencie com a mesma força, encontram no ataque pessoal o atalho mais barato.
O portal de Luiz Estevão ganha corte, clique e “melhor momento”. O eleitor ganha espetáculo. O governo, em campanha, só ganha desgaste.
Há uma vaidade de campanha que insiste em tratar debate como prova de coragem. Não é. Debate mal desenhado é armadilha de exposição.
A TMC já tinha montado o circo no início da semana; Celina não foi. Acertou. Ir ao Metrópoles foi o contrário: validar um ringue em que o produto principal não é plano de saúde, metrô ou conta pública, e sim o constrangimento.
Marketeiro “iluminado” adora a frase “tem que ir para não parecer que foge”. Às vezes, evitar o circo é exatamente a decisão de quem já tem voto e não precisa ceder tempo de TV para o adversário ensaiar uma denúncia sem provas para parecer verdadeira.
Ninguém pede que a chefe do Executivo se esconda. Pede-se cálculo. Se o formato premia o ataque em massa e pune a defesa isolada, participar é subsidiar o adversário.
Enquanto os debates forem assim, bloco de farpa, direito de resposta em série, acusação doméstica no lugar de métrica de gestão, a racionalidade eleitoral de quem lidera é simples: não alimentar o palco.
Os marqueteiros de Celina precisam entender que governar o tempo que resta até o primeiro turno é falar com o eleitor onde o microfone não é compartilhado com cinco algozes. Circo tem plateia, mas campanha que lidera não é obrigada a ser atração.
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