Quando a campanha começou, Cris Britto não estava no radar. Tinha currículo de peso, mas nenhuma eleição no histórico, e enfrentava adversários com mandato, estrutura e anos de urna. A pergunta era se uma trajetória construída na gestão pública conseguiria se converter em voto.
A resposta veio nas pesquisas. No levantamento IGAPE de 31 de agosto a 5 de setembro, Cris apareceu pela primeira vez com 1,5%. Já na última rodada, de 22 a 26 de setembro, chegou a 2,5% e ao décimo lugar, sendo a única mulher top 10.
Pesquisa não explica sozinha por que uma candidatura cresce. Mas a trajetória da campanha permite identificar os movimentos que acompanharam essa subida.
Quem é Cris Britto
Nordestina, de família humilde, Cris chegou a Brasília há mais de duas décadas e construiu a carreira na advocacia. A projeção nacional veio no governo federal, primeiro como secretária nacional de Políticas para as Mulheres, depois como ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro.
Foi nesse período que seu nome passou a circular entre lideranças religiosas, movimentos de mulheres e o campo conservador. Programas de proteção à mulher, à criança e à família deram a ela algo raro em estreantes: um histórico de entregas para mostrar. A eleição de 2026 é a primeira que ela disputa.
As igrejas: capilaridade onde a campanha precisava
O primeiro fator que explica o fenômeno Cris Britto é a entrada no eleitorado cristão, segmento com o qual ela já tinha identificação antes da campanha.
O ponto de partida foi a Assembleia de Deus Ministério Madureira, igreja da qual ela é membro e uma das maiores estruturas evangélicas do DF. A partir dela, a campanha avançou sobre outras denominações. Conquistou o apoio da Igreja Presbiteriana do Brasil, da Igreja Batista da Lagoinha, da Igreja Koinonia e até de parte importante da igreja Católica.
O dado relevante não é só o tamanho de cada igreja, mas a diversidade. Pentecostais, presbiterianos e comunidades de perfil mais jovem e urbano raramente se alinham em torno do mesmo nome. Quando isso acontece, a candidatura deixa de depender de um único nicho e ganha alcance em diferentes regiões administrativas e faixas de eleitorado.
As lideranças conservadoras: de nome técnico a nome do campo
O segundo fator é a chancela de quem o eleitor conservador já conhece e confia. Damares Alves e Michelle Bolsonaro formam o núcleo desse apoio, e nenhum dos dois laços nasceu na campanha. Cris foi secretária de Damares no ministério antes de assumir a pasta. Michelle esteve ao lado das duas nas agendas de proteção à mulher e à família. Hoje, Damares apresenta Cris como continuidade do trabalho que construíram juntas, e Michelle a acompanha em agendas políticas e religiosas.
Em torno desse núcleo, a campanha somou apoios de alcance nacional como o senador Flávio Bolsonaro, que disputa a presidência da república, o senador Cleitinho Azevedo, Guilherme Derrite, referência na pauta de segurança pública, o apresentador Sikêra Jr., com forte audiência popular e o o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas. Cada nome fala com um público diferente, e juntos reposicionam Cris de ex-ministra conhecida nos bastidores para candidata reconhecida pelo eleitor conservador de base.
A aliança local: peso no tabuleiro do DF
O terceiro fator é a estrutura política no Distrito Federal. O Republicanos integra a chapa majoritária da governadora Celina Leão, que indicou Gustavo Rocha como vice, e Cris faz parte dessa aliança com o apoio da governadora. Para uma estreante, estar dentro do principal arranjo de poder local significa acesso a agendas, lideranças regionais e visibilidade que candidaturas isoladas não têm.
A música gospel: a campanha onde o eleitor está
O quarto fator é menos visível nos jornais, mas decisivo no dia a dia: o apoio de artistas gospel como Carlinhos Félix, Fernanda Brum, Michelle do Pandeiro e Maralima. São nomes com público fiel em cultos, eventos e redes sociais, que levam a candidatura a espaços onde o discurso político tradicional não entra. Na prática, funcionam como ponte entre a campanha e a rotina do eleitor cristão.
O que os números mostram
Somados, esses movimentos explicam por que a campanha de Cris chega à última semana com uma estrutura muito diferente da que tinha no início: base religiosa ampla, chancela das principais lideranças do campo conservador, inserção na aliança do governo local e presença cultural no segmento evangélico.
A eleição para deputado federal é proporcional, e o resultado depende também do desempenho do partido. Estar no Top 10 não garante cadeira. Mas a candidata que começou fora do páreo chega à reta final como a mulher mais bem posicionada da disputa e com espaço para crescer.
A “improvável” pode ser a grande surpresa de domingo.
Pesquisa Igape, realizada de 22 a 26 de setembro de 2026, com 2 mil eleitores. Margem de erro de 2,2 pontos percentuais, nível de confiança de 95%. Registro no TSE: DF-00171/2026.
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