Radar Econômico/Opinião

*Por Caio Rafael Corrêa Braga Internacionalista com experiencia em economia global.

A verdadeira razão da invasão da Venezuela: petróleo, geopolítica e poder

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O ano de 2026 se iniciou com a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente pelos Estados Unidos sob o pretexto de narcoterrorismo.

Após as próprias autoridades estadunidenses retirarem a acusação de que Maduro era líder de um grupo narcotraficante, não restam mais dúvidas sobre os reais interesses estadunidenses na Venezuela.

Como explicitamente declarado pelas altas autoridades estadunidenses, o interesse dos Estados Unidos é no controle da riqueza petrolífera, mas não apenas. Neste texto, busco expandir as razões estratégicas do golpe desfechado contra a Venezuela.

É sobre o petróleo, estúpido!

Na campanha presidencial estadunidense de 1992, o estrategista político de Bill Clinton cunhou a frase “É a economia, estúpido” para afirmar que a situação econômica dos EUA definiria o ganhador daquele pleito.

Analogamente, podemos resumir as motivações da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos em uma frase: ‘’é sobre o petróleo, estupido! Desde os anos 2010, os Estados Unidos passaram a ser um grande produtor de petróleo, alcançando a condição de maior produtor mundial em 2018 graças à revolução do petróleo de xisto.

Contudo, a infraestrutura de refino de petróleo nos Estados Unidos é majoritariamente adaptada a um tipo de petróleo pesado, diferente do petróleo de xisto. As grandes petroleiras estadunidenses enfrentam dificuldades para continuar o refino nos próximos anos em razão da saturação das fontes de petróleo pesado.

A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo pesado no mundo. Por esse motivo, os Estados Unidos buscam garantir que o petróleo venezuelano seja controlado pelas empresas petrolíferas estadunidenses, cujo interesse primordial é a manutenção da exploração, do refino, da venda e controle da renda petroleira.

Ademais, os americanos buscam impedir o acesso dos Estados chinês e russo aos recursos venezuelanos, reduzindo, portanto, a presença das estatais petroleiras russa e chinesa do território venezuelano.

Também buscam reduzir as importações chinesas de alumínio e ferro, elementos essenciais para o desenvolvimento econômico do país asiático, freando, assim, o avanço chinês na competição estratégica internacional.

O dólar no centro da ofensiva estadunidense

Reduzir as fontes de suprimento de recursos estratégicos para os chineses é uma das principais motivações, mas não a única. A superpotência americana almeja igualmente frear o intercâmbio comercial entre o país caribenho e a China em moeda que não seja o dólar.

Diante das diversas sanções enfrentadas pela Venezuela e o congelamento de seus dólares, a solução encontrada pelo chavismo foi desenvolver mecanismos de comércio internacional que escapassem do dólar como moeda de troca internacional.

Assim, parte significativa do petróleo e dos recursos minerais venezuelanos passou a ser comercializada na moeda chinesa.

Diante do novo momento histórico de desafio à hegemonia global dos Estados Unidos, estes não poderiam deixar que um país no continente americano servisse de exemplo para outros Estados nos esforços de desdolarização do comércio internacional.

Este objetivo fica ainda mais claro, pois o presidente Donald Trump condiciona a permanência de Delcy Rodríguez, vice-presidente no comando da Venezuela, à utilização de dólares americanos no comércio petroleiro e mineral exclusivo com os Estados Unidos.

Venezuela como cartão de visitas da política internacional estadunidense

Realizada logo após a publicação da Nova Doutrina de Segurança Nacional, a ofensiva estadunidense na Venezuela é o primeiro ato prático de afirmação dos interesses econômicos, políticos e militares dos EUA no continente americano.

No cenário internacional, a Venezuela não é um ator dotado de capacidades para desafiar a hegemonia estadunidense. Contudo, desde a vitória do chavismo e sua consolidação nas estruturas de Estado, o país caribenho se constituiu num baluarte contra o imperialismo e um pólo de resistência aos interesses ianques na região.

Ao passar dos anos, com o ressurgimento da China e da Rússia na cena internacional, a Venezuela passou também a ser uma porta de entrada dos interesses desses países no continente americano e gradualmente um terreno de experimento para novas formas de comércio internacional, as quais poderiam ameaçar a hegemonia mundial do dólar se adotadas massivamente por outros países.

Face a esse cenário, os Estados Unidos aproveitaram-se da fragilidade militar venezuelana para perpetrar seu ataque, usá-lo de modelo para sua política internacional doravante e aumentar sua capacidade de negociação notadamente com os chineses.

O modus operandi Venezuela buscará ser reproduzido onde quer que os os interesses dos Estados Unidos se encontram ameaçados ou onde os Estados Unidos percebam que podem bloquear o avanço de seus competidores estratégicos (Rússia e China, sobretudo).

Se a superpotência americana logrará manter seu império e fazer valer seu interesse diante dos outros povos do mundo, a história nos dirá. Na Venezuela, a vitória dos Estados Unidos ainda não se consolidou completamente. Tomando o caso venezuelano como exemplo e submetendo minha análise ao teste da História, a decadência hegemônica ianque me parece irreversível.

*Caio Rafael Corrêa Braga é Internacionalista. Pesquisador na Amarante Consulting. Morou e estudou na França, Itália e Alemanha. Atualmente encontra-se em Berlim e é articulista do Radar DF

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