Radar Político/Opinião Por Toni Duarte Por dentro dos bastidores da política brasiliense.

O ASSUNTO É

O preso e o protegido: o jogo do sistema que molda a eleição de 2026

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As eleições de 2026 não serão apenas uma disputa entre projetos políticos. Serão, acima de tudo, um julgamento histórico sobre o uso do poder estatal contra adversários ideológicos em um país profundamente dividido.

Jair Bolsonaro, goste-se ou não dele, deixou de ser apenas um ex-presidente. Transformou-se em símbolo, um mártir da direita conservadora.

Sua prisão, a sua deterioração física e a recusa sistemática a medidas humanitárias alimentam, entre milhões de brasileiros, a convicção de que o sistema escolheu um lado: o papel de carrasco.

Não se trata de negar decisões judiciais, mas de questionar o contexto. O mesmo Supremo que mantém Bolsonaro encarcerado é aquele que anulou condenações de Lula, devolvendo-lhe direitos políticos por decisões processuais, não por absolvição de mérito.

Para o eleitor conservador, a mensagem é clara: a lei pesa de forma diferente conforme o réu.

Um apodrece na cela, outro governa o país e lidera pesquisas aos 80 anos, pronto para disputar novo mandato.

Nesse ambiente, Bolsonaro assume o papel de mártir involuntário. Não por estratégia calculada, mas porque sua trajetória passou a representar a resistência conservadora contra um arranjo institucional que mistura ativismo judicial e militância política, tudo em um mesmo saco.

A direita dividida, que tenta se reorganizar em torno de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, encontra no sofrimento de Bolsonaro um eixo de unificação.

Não é culto à dor, mas reação à percepção de injustiça. Para milhões brasileiros, não se votará apenas em um candidato, seja Lula ou na martirização de Bolsonaro, mas contra um sistema.

Lula encarna a revanche de também ter sido preso. Apresenta-se como normalidade democrática, mas carrega o peso simbólico de ter retornado ao poder pelas mãos de tribunais, não por absolvições claras.

Em outubro desse ano, o Brasil não escolherá apenas entre direita e esquerda. Escolherá entre aceitar a política tutelada por cortes ou reafirmar que soberania popular não pode ser substituída por juízes, por mais legais que pareçam.

Será uma eleição movida menos por propostas e mais por memória, ressentimento, comoção e identidade.

A martirização de Jair Bolsonaro, consumido lentamente em uma cela da PF, pode transformar sofrimento em força política e virar a arma decisiva contra um sistema que já não consegue pacificar o próprio país.

*Toni Duarte é jornalista e editor/chefe o Radar-DF, com experiência em análises de tendências políticas e comportamento social da capital federal. Siga o #radarDF

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