A campanha para o Governo de Goiás sequer começou oficialmente e, nos bastidores, dois candidatos ao Palácio das Esmeraldas já parecem negociar o que deveria ser decidido apenas depois das urnas do primeiro turno.
Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL) estariam ensaiando uma espécie de “contrato de gaveta” longe dos olhos dos eleitores e aliados: apoio mútuo para um eventual segundo turno.
A revelação, feita pelo próprio Marconi, provocou desconforto no núcleo bolsonarista da campanha de Wilder. A preocupação é compreensível.
Para quem tenta se apresentar como alternativa aos principais adversários, antecipar uma aproximação com um ex-governador marcado por uma longa trajetória política como a de Marconi pode representar mais ônus do que bônus.
E aqui está um dos pontos mais sensíveis dessa possível composição: a vida pregressa de Marconi Perillo. Ex-governador de Goiás por quatro mandatos, o tucano acumulou, ao longo da carreira, processos e investigações que ainda fazem parte do seu passivo político.
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Isso não significa, naturalmente, transformar processos em condenações ou antecipar juízos que cabem à Justiça.
Mas, eleitoralmente, a simples existência desse histórico pode ser suficiente para reavivar desgastes que seus adversários certamente explorarão.
O problema para Wilder está justamente na identidade de sua candidatura. O PL tenta apresentar o senador como o candidato da direita. Se Wilder aparecer aos olhos do eleitor como alguém que já tem um acordo com Marconi, pode perder justamente o discurso de que é a alternativa nova e independente.
E há um agravante: Daniel Vilela já demonstra força eleitoral suficiente para capturar esse eleitorado em uma eventual migração. Na pesquisa
Daniel Vilela aparece cada vez mais isolado na liderança da disputa pelo Governo de Goiás. Pesquisa do Instituto Paraná, divulgada na última terça-feira (18), mostra o governador Daniel Vilela (MDB) com 45,8% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 24,9% de Marconi Perillo e 13,2% de Wilder Morais.
Os demais candidatos não ultrapassam 2,3% das citações. A vantagem de Daniel sobre Marconi chega a 20,9 pontos percentuais.
Os números ajudam a dimensionar o risco. Se uma parcela do eleitorado de direita concluir que Wilder e Marconi fazem parte de um mesmo “balaio de gatos”, Daniel pode ocupar o espaço deixado pelo candidato do PL entre eleitores pragmáticos, moderados ou simplesmente interessados em derrotar a esquerda, e que não necessariamente têm fidelidade absoluta ao partido.
Mais importante ainda: a declaração de Marconi criou um problema de comunicação para Wilder. O tucano disse publicamente que existe reciprocidade; Wilder precisou negar e afirmar que não há tratativa para o segundo turno.
Assim, antes mesmo de produzir votos, o acordo já pode produzir dúvidas. E eleição se perde, muitas vezes, quando o eleitor começa a perguntar se o candidato que pretendia escolher ainda representa aquilo em que acreditava.
Mas há um detalhe que torna essa história ainda mais interessante. A relação entre os dois não nasceu agora. Em janeiro de 2011, no início do terceiro mandato de Marconi, Wilder foi nomeado secretário de Infraestrutura de Goiás.
Agora, décadas depois, os antigos aliados voltam a se encontrar na mesma estrada eleitoral. Na política, memória também é moeda. E, pelo visto, Marconi acredita que chegou a hora de cobrar a fatura.

