O maior adversário do PT do Distrito Federal nesta eleição não está necessariamente nos palanques, nos debates ou nos programas eleitorais. Está na memória do eleitor.
É o povo brasiliense quem guarda, há mais de uma década, as marcas deixadas pela passagem do partido pelo Palácio do Buriti, entre 2010 e 2014.
O PT quer voltar ao comando do Buriti como se aquele período fosse apenas um detalhe inconveniente do passado.
Para uma parcela do eleitorado, porém, a lembrança é outra: a de um governo que terminou atolado em denúncias de corrupção, problemas relacionados à gestão do dinheiro público e uma série de dificuldades que seriam herdadas pelos governos seguintes.
Em dezembro de 2014, a equipe de transição de Rodrigo Rollemberg (PSB), aquele da “roda de conversas pra boi dormir”, estimou que o rombo nas contas do GDF poderia chegar a R$ 3,8 bilhões.
A chamada “herança maldita” daquele período também foi marcada pelas investigações relacionadas às grandes obras para a Copa do Mundo.
A Operação Panatenaico investigou suspeitas de corrupção, fraude em licitações e superfaturamento. No caso do Mané Garrincha, a obra, contratada inicialmente por cerca de R$ 690 milhões, chegou a aproximadamente R$ 1,5 bilhão após aditivos, segundo informações divulgadas à época. Agnelo Queiroz foi preso.
Rollemberg assumiu, prometendo reorganizar as contas e “arrumar a casa”. Quatro anos depois, não conseguiu transformar o discurso em capital político. O ex-governador não conseguiu se reeleger e foi derrotado por Ibaneis Rocha, em 2018.
Ao assumir o governo, Ibaneis Rocha também herdou um rombo que ultrapassava R$ 5 bilhões e acusou Rollemberg de ter deixado R$ 1,1 bilhão da folha de pagamento para ser quitado com recursos do exercício seguinte.
É essa memória que o PT terá de enfrentar agora.
Leandro Grass é o candidato do partido ao Buriti, mas a estratégia de retorno ao poder esbarra em uma pergunta simples: o que mudou desde 2014?
As pesquisas mais recentes mostram Celina Leão à frente, com possibilidade de vencer no primeiro turno, no próximo domingo (4).
O ambiente atual também mostra que o PT ainda não conseguiu transformar o discurso de oposição ao governo em desejo de retorno ao poder.
O partido pode trocar candidatos, discursos, marqueteiros e estratégias. Pode tentar reescrever uma nova história, com uma nova cara, mas permanece associado, para parte do eleitorado, às controvérsias e aos problemas daquele período.
No próximo domingo, o candidato do PT não estará enfrentando apenas Celina Leão, mas também o julgamento silencioso de quem vai às urnas: o povo que não tem memória curta.
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